Pecuária extensiva: características e impactos na lucratividade

O caminho para o aumento de lucros na pecuária

O caminho para o aumento da eficiência e lucratividade da produção animal no Brasil, para muitos, é o da intensificação da produção. A intensificação da produção é caracterizada pelo aumento da produção final em relação ao número e valor de ativos (terras, máquinas, equipamento) empregados em um período no tempo. Foi este o caminho trilhado pelas indústrias de suínos e aves, e mais tarde acompanhado por segmentos da bovinocultura de leite. Atualmente, muitos argumentam que é este o caminho natural para toda a produção de proteína animal no Brasil, que vislumbra o aumento dos retornos sobre capital empregado na produção.

A “extensificação” como estratégia de aumento de lucros

Embora preconizada como o caminho de sucesso para o desenvolvimento de determinadas criações animais que ainda se mantem caracterizadas pela produção extensiva, como a bovinocultura de corte e parte da bovinocultura de leite, a intensificação da produção deve ser cuidadosamente avaliada. Isto torna-se especialmente importante em um país de dimensões continentais com alta disponibilidade de recursos naturais, como o Brasil. As características edafoclimáticas do país conferem ao Brasil uma grande vantagem competitiva quando comparada a outros países, o que deve ser observada e levada em consideração quando da avaliação das oportunidades de lucro na atividade.

Isto torna-se ainda mais vital à medida que os mercados consumidores de países que tem a produção animal consolidada em sistemas intensivos pressionam a produção primária para “extensificação” da produção. Tais demandas decorrem, principalmente, de preocupações com bem-estar animal e humanização da produção. São vários os exemplos, como a Preposição número 2 do governo da Califórnia, que proíbe a criação de frangos em gaiolas, bem como as várias legislações já passadas pela União Européia no mesmo caminho. A proibição de gaiolas de gestão em suínos, do uso de hormônios em animais, são alguns dos exemplos que contrariam a produção, cada vez mais intensiva, de animais.

A análise histórica da estrutura dessas indústrias e do impacto que as recentes regulamentações tiveram nestas indústrias, nos permite melhor avaliar os caminhos que algumas das indústrias que operam em caráter extensivo tem percorrido ou podem percorrer, como é o caso da bovinocultura de corte.

A Gestão da produção extensiva, mais vital que a gestão na produção intensiva

A primeira grande recomendação comumente dada a sistemas que estão se intensificando é a profissionalização da gestão com o aumento de pontos de controles e rigidez de análises que permitam melhor avaliar o processo produtivo, agora mais intensificado. O fato é que a produção extensiva requer monitoramento constante e, muitas vezes, análises mais detalhadas e sofisticadas. Ainda que o manejo operacional, por não ser tão intenso, exija menos pontos de controle, o número de variáveis e de processos biológicos aumentam, exigindo uma gestão mais apurada para o sucesso na atividade e garantia de altos retornos.

Fatores de produção na pecuária intensiva são naturalmente controlados

Retornos econômicos em produções intensivas são atribuídos, principalmente, ao ganho de escala e diluição de custos fixos por unidade produzida, uma vez que mais unidades são produzidas em espaços reduzidos. A terra, na pecuária por exemplo, representa grande parcela do capital investido na atividade. Da mesma forma, custos variáveis por unidade produzida geralmente aumentam em sistemas como este, uma vez que manejos nutricionais e sanitários são intensificados para garantir a ótima produção. O período para terminação e produção de animais é encurtado, garantindo o maior giro de animais sobre os mesmos ativos (patrimônio), o que, por consequência, culmina em maior produção e diluição dos custos fixos. O maior emprego de custos variáveis (insumos de produção) é o que, muitas vezes, sugere maiores pontos de controle para garantir as margens na atividade.

Estratégias adicionais para garantirem lucros na pecuária extensiva

Quando avaliamos sistemas produtivos extensivos, os custos fixos (associados ao emprego de capital fixo, como terra, rebanho, e despesas gerais) por unidade produzida aumentam. Os custos variáveis diminuem, uma vez que muitos dos insumos de produção podem ser retirados do ambiente (pastagens) e alguns dos controles sanitários podem ser descartados. Frequentemente, permite-se maior tempo para produção dos animais o que reduz o giro e atribui a margem por animal, o fator preponderante para os retornos na atividade.

É justamente aí que a gestão se torna uma ferramenta imprescindível para o sucesso na atividade extensiva. Enquanto as produções intensivas demandam mais insumos, o sistema naturalmente apresenta maior controle em decorrência das movimentações constantes destes, facilmente observadas, e pela natureza da criação caracterizada por estar sob fatores controlados. Em criações extensivas de animais monogástricos, como aves e suínos – que sofrem pressões pela “extensificação”- a gestão torna-se vital para precificação do produto final. Visto que não conseguem retirar do ambiente sua nutrição, como bovinos fazem por meio do consumo de pastagens, é provável que o custo de produção aumente. Estratégias de marketing e vendas que garantam diferenciação e maior precificação do produto fazem-se necessárias para garantia dos retornos.

Já a produção extensiva de bovinos, principalmente em países como Brasil, pode apresentar custos de produção inferiores aqueles apresentados por produções intensivas. Muito se dá em função dos recursos naturais disponíveis, permitindo que o animal retire do ambiente muitos dos seus insumos de produção, como a própria pastagem.

Pecuária extensiva: mais processos biológicos e atividades econômicas

Entretanto, é importante destacar, na pecuária extensiva, que ao oferecer pastagem aos animais, adiciona-se mais uma atividade econômica no processo produtivo. A transformação de insumos agrícolas em massa verde para consumo desses animais. Além do conhecimento técnico adicional exigido, tal estratégia traz consigo toda a complexidade e variáveis de processos biológicos adicionais e seus impactos nos lucros. Ainda, a inter-relação entre a produção agrícola de pastagens e a produção animal de carne, agrega ainda mais complexidade ao sistema. As variáveis não são facilmente observadas pelo gestor, e é isto que faz da atividade, apresentar resultados extremamente heterogêneos entre os vários produtores rurais ao redor do Brasil.

É possível que, a complexidade das diversas variáveis existentes em produções extensivas, seja o motivo para o baixo nível de profissionalização da gestão percebido em agronegócios com esses sistemas de produção. Atualmente, já são várias as novas tecnologias que permitem a observação e controle dessas variáveis.

Futuro da produção nacional extensiva com maiores lucros

Se bem gerida, a produção extensiva tem potencial para retornos ainda maiores que a produção intensiva. É fundamental avaliar o nível de intensificação que garantirá os maiores lucros na atividade. No segmento leiteiro do Brasil, por exemplo, o que conferirá maiores lucros à atividade? A produção semi-extensiva que resulta na produção de 15 litros por vaca por dia, ou a produção intensiva que eleva a produção para 40 litros por vaca por dia? Somente a gestão profissionalizada, contemplando a avaliação estratégica e econômica da realidade de cada produtor e região, é que conferirá a resposta a estas perguntas. Ainda, a vocação natural que o país tem para sistemas extensivos pode ser transformada em retornos ainda maiores, à medida que estratégias de diferenciação, como aquelas adotadas por produtores intensivos de países desenvolvidos que estão “extensificando-se”, consigam ser adotadas por produtores nacionais.

 

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