Agricultura orgânica: fatores chave de sucesso.

O crescente aumento de renda e mudança no perfil de consumo vem impulsionando o surgimento de novas alternativas de modelos de negócio para atuarem dentro de nichos de mercado específicos. Esses novos negócios diferem-se em partes da chamada “produção primária convencional”, como é o caso da agricultura e pecuária orgânica.

A agricultura e pecuária orgânica, independente das discussões quanto aos fatores que levam ou não aos seus consumos, apresentam oportunidades de lucro para o produtor, ao passo que também incorrem riscos adicionais que merecem ser cautelosamente avaliados. A viabilidade econômica do sistema produtivo deve ser analisada para a realidade de cada produtor. Ao contrário da agricultura “convencional”, nem sempre os ganhos de escala representam diferencial competitivo e aumento de lucros.

O que é a produção orgânica?

Inicialmente, é importante explicitar o conceito de agricultura, ou pecuária, orgânica. São várias as definições, e as mesmas podem variar substancialmente de região para região. Pesquisas com consumidores mostram ainda uma grande confusão conceitual sobre este tema, mesmo este se mostrando um mercado com potencial de crescimento.

Uma das definições mais amplas e vastamente empregadas: “A produção orgânica é um sistema de produção baseado em 3 elos: o meio ambiente, o econômico e o social; tendo os três a mesma importância. O sistema orgânico busca produzir da forma mais natural possível, economicamente viável e socialmente participativa na região que se encontra.”1

Trata-se de uma definição ideológica sobre o tema. Órgãos reguladores, contudo, apresentam uma definição mais prática e direta. A produção orgânica no Brasil pode ser resumida em um sistema produtivo conforme uma série de normas (Instrução Normativa IN-46) . Mais ainda, esta precisa ter um selo credenciado do Ministério da Agricultura (MAPA), assegurando que a produção está seguindo os padrões exigidos pela lei. Só assim pode-se dizer que o produto final produzido é de fato, orgânico.

Existem diferentes maneiras para obter o selo: auditoria por instituições privadas, sistema participativo de garantia (SPG) ou ainda o controle social ou venda direta (que na verdade exclui a necessidade do selo, mas garante o produto vendido como orgânico).

 A emergência de nichos de mercado

O mercado mundial de alimentos torna-se cada vez mais segmentado. Ou seja, cada vez mais emergem grupos de consumidores com perfis de consumos semelhantes entre si, mas susbstancialmente diferente dos demais consumidores da população. À medida que consumidores buscam novas alternativas de alimentação para suprirem suas novas necessidades, o setor produtivo também evolui na tentativa de atender esses novos mercados e ampliarem seus lucros. Especificamente no agronegócio, poderíamos citar: carnes premium, produção de carne a pasto, frangos criados soltos, ovos caipiras, agricultura e pecuária orgânica entre outros.

Historicamente, a agricultura e pecuária “convencionais”, objetivaram a produção de commodities, ou seja, de produtos sem diferenciação – um milho no Brasil é o mesmo que um milho na China. Nesse contexto, o controle e minimização de custos torna-se preponderante para o sucesso na atividade, muitas vezes atrelado ao ganho de escala produtiva e aumento de produtividade. A estratégia se mostra eficaz, entre outras coisas, pois o preço é ditado pelo mercado global, portanto não controlado pelos produtores. A diminuição do custo é a maneira encontrada para garantia de margens e aumento de lucros.

Contudo, com o aumento da exigência de consumidores, e com isso a disposição para pagar um prêmio por produtos diferenciados (nichos de mercado), os custos deixam de ser protagonistas para o sucesso da atividade, visto que agora há maior variação e oportunidades para controle e aumento de preços. Note que custos não perdem a sua importância, afinal de contas, produtos de mesmo preço, mesmo que diferenciados, ainda encontram nos custos a oportunidade de ampliação de lucros. Entretanto, existem outros fatores que são mais cruciais, uma vez que os consumidores estão dispostos a pagar mais pelo padrão exigido.

Na agricultura e pecuária orgânica não é diferente: existem consumidores que pagam mais por um produto diferenciado, o que é justificado pelo franco crescimento (20% em 2016). O aumento de preços, entretanto, é acompanhado de normas específicas de produção que muitas vezes encarecem o produto final.

Ao tornar o custo de produção secundário dentre os fatores determinantes para o lucro na produção orgânica, torna-se também menos crucial o aumento de produtividade ou da escala para compensar as margens, outrora apertada.

O fato justifica o perfil de produtores orgânicos no Brasil, 15 mil pequenos e médios produtores, na sua maioria familiares e principalmente no Sul e Sudeste brasileiros. O modelo de negócios de orgânico, portanto, pode vir a ser uma estratégia que oferece maiores sinergias para esses produtores quando comparados, relativamente, aos grandes produtores “convencionais”. Torna-se imprescindível a avaliação econômica para mensuração dessas sinergias. 

O fator de sucesso da produção orgânica

Apesar de não protagonistas, os custos não podem ser deixados de lado, e são importantes principalmente quando comparados aos mesmos tipos de produtos (mesmo nível de diferenciação). É o que ocorre entre outros agricultores e pecuaristas produtores de orgânicos.

A outra ponta, da comercialização, e a produção que permite a comercialização diferenciada, torna-se essencial para o sucesso na atividade. Estes são, portanto, fatores intrínsecos e extrínsecos à produção primária. Um deles é a obtenção do selo, ou seja, assuntos regulatórios. Para produzir um produto orgânico é preciso ter o selo que comprove que se está seguindo as normas regulatórias, o que além de custos associados à requisição e manutenção, pode levar anos para que se certifique uma propriedade já em andamento (devido ao período de transição exigido pela normativa).

Produtos orgânicos também apresentam alto custo para consumidores quando comparados a produtos convencionais, devido a limitações na adoção de algumas tecnologias, custo de insumos orgânicos, disponibilidades de insumos orgânicos, entre outros. Ter acesso a mercados de maior poder aquisitivo, estabelecer uma marca como sinônimo da qualidade, construir relacionamentos com varejistas que garantam o escoamento constante da produção mais custosa, são algumas das estratégias que devem ser consideradas para assegurar os lucros e minimizar os riscos da atividade.

As altas taxas de crescimento ainda representam um montante pequeno diante do todo, e parte disso pode ser atrelado pela alta elasticidade da demanda. A alta elasticidade pode ser caracterizada pela diminuição brusca no consumo quando temos variações pequenas de preço. Da mesma forma, o consumo também diminui quando há a variação de renda. É simples, em tempos difíceis pessoas não deixarão de comer, contudo podem não conseguir manter o consumo de produtos mais caros, como os orgânicos.

O futuro da sua produção orgânica

Se bem avaliada e executada, a produção de orgânicos pode apresentar sim uma alternativa viável para produtores rurais – familiares ou não.

 A produção orgânica no Brasil é uma alternativa ao sistema convencional de produção primária que pode vir a ser lucrativo quando tem seus riscos e fatores determinantes alinhados com o planejamento estratégico de longo prazo, abrangendo não somente fatores internos de produção, mas fatores como a cadeia produtiva de produtos orgânicos, logísticas de escoamento e distribuição, riscos comerciais e suas relações com cenários macroeconômicos, riscos regulatórios, entre outros.

1Adaptado de usp.br/pecuariaorganica

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