Agricultura no Brasil: evolução e estratégias adotadas

A agricultura tem seus primórdios na era pré-histórica, o que possibilitou aos homens deixarem de ser meramente caçadores nômades para fundarem povoados e cidades, e obterem alimentos através do cultivo da terra. Mais adiante, com as grandes revoluções e grande aumento de pessoas no planeta, a agricultura passou a ter um papel fundamental: alimentar o mundo. No Brasil não é diferente, e hoje em dia, além da tarefa de fornecer produtos para a população mundial, a agricultura no Brasil tem grande importância econômica, social e ambiental.

Evolução da agricultura

A agricultura tem sua origem na pré-história, quando o homem percebeu que poderia se alimentar de cereais e cultivá-los. Na época, a chamada Revolução Neolítica permitiu ao homem cultivar alimentos em um lugar fixo e deixar de lado sua característica nômade de caçador-coletor. O resultado foi a fundação dos primeiros povoados e futuramente cidades.

Com a crescente população e estabelecimentos de vilas, o homem passou a observar as plantas, aprendendo seu cultivo e domesticando as mesmas. Com isso, a quantidade de povoados fixos aumenta e novas técnicas agrícolas passam a ser constantemente desenvolvidas.

Muitas destas práticas foram sendo aprimoradas, o que resultou na introdução de novas culturas, ampliação do tamanho de propriedades, técnicas de conservação de solos, entre outras medidas que resultaram na produção de alimentos em excesso, sustentando o crescimento populacional das cidades.

Já na era moderna, com origem na Europa e amparada pela agricultura que gerava capital e alimentos, a revolução industrial trouxe grandes mudanças do ponto de vista produtivo e comercial. Liderada pelos setores têxtil e metalúrgico, com incentivos de diversos países e abertura de mercados, consolidou-se o sistema capitalista, onde a mecanização da produção transformou a produção artesã na produção mecanizada de artefatos industriais.

Crescimentos populacionais e pressão na agricultura

A crescente disponibilidade de alimentos, melhorias na habitação e saneamento, aumento da condição econômica da população, possibilitou o aumento da natalidade e expectativa de vida. O resultado seria um crescimento muito acelerado da população, o que levantou questionamentos.

Dono da teoria populacional malthusiana, ainda no século 18, Tomas Malthus já alertava sobre o crescimento muito acelerado da população em relação ao crescimento da produção de alimentos, o que levaria ao controle populacional pela fome no futuro. Desde então, surgiram outras teorias que ressaltam o descontrole populacional e controle populacional ocorrido pela falta de alimentos.

Em resposta, já no século passado, vivenciamos a chamada Revolução Verde liderada pelos EUA e Europa. O movimento basicamente expandiu técnicas como o uso intensivo de insumos industriais, mecanização agrícola e redução do custo de manejo. Entre eles, o avanço da biotecnologia, desenvolvimentos de novos defensivos, fertilizantes, máquinas, técnicas de plantio, colheita, irrigação e gerenciamento da produção formaram a base do grande aumento da produção de produtos homogêneos – commodities­ – com baixos custos de produção.

O resultado foi um grande salto na produção agrícola mundial, o que trouxe grande desenvolvimento econômico em diversas regiões, principalmente na Ásia e África, e que tirou milhares de pessoas da miséria e fome, e sustentou um enorme desenvolvimento econômico majoritariamente oriental.

 Estratégias históricas da agricultura no Brasil

Desde o descobrimento do Brasil, a agricultura brasileira se desenvolveu de maneira notável, passando por algumas fases que resultam na agricultura moderna e referência mundial que é hoje.

Primeiramente, a agricultura brasileira passa por um período em que seu papel é sustentar o desenvolvimento das cidades e auxiliar no equilíbrio da balança comercial. Exemplos disso são os grandes ciclos agrícolas, cada uma em uma época, que figuraram no Brasil: cana-de-açúcar, mineração, pecuária, borracha, café etc. Muitos deles presentes no sudeste e sul do país, acompanhado pelo desenvolvimento urbano e econômico das regiões.

Análoga à revolução verde lá de fora, a revolução dos cerrados, encabeçada pela agência de pesquisa Embrapa, difundiu técnicas de manejo e novas tecnologias que permitiriam a exploração do cerrado brasileiro, com a entrada de máquinas, correção do pH dos solos, novos cultivares adaptados às características edafoclimáticas da região, entre outros.

A percepção de que era possível lucrar com a agricultura no cerrado brasileiro trouxe uma série de novos investimentos e o resultado foi a expansão de novas fronteiras agrícolas na direção centro-norte, provocando incremento significativo da produtividade de recursos (área, trabalhadores, máquinas, etc) advindo da adoção tecnológica e consolidação do Brasil no cenário mundial do agronegócio.

Desenvolvimento da agricultura “tradicional”

Com traços dos últimos séculos, a agricultura passou a escalar cada vez mais, principalmente com a mecanização e automação da mão de obra, desenvolvimento de novas pesquisas e consequente lançamento de tecnologias (fruto da revolução verde). A estratégia de expansão da produção por meio da abertura de novas áreas, historicamente menos custosas até então, torna-se cada vez menos atrativa e atrai cada vez mais o holofote das sociedades mais desenvolvidas.

Neste cenário, a produtividade da área, fator de produção que, historicamente, imobiliza grande parte do capital investido na atividade torna-se fator chave e preponderante para o sucesso econômico no setor. O resultado da expansão da área (ainda que em menor proporção) e aumento da produtividade foi uma superprodução de commodities, o que favoreceu a elevação da oferta global de alimentos. O aumento da oferta de alimentos resulta na queda dos preços pagos ao produtor que, por sua vez, contribui ainda mais para constantes adoções de tecnologias e minimização de custos.

Ao passo que a agricultura se desenvolve, outros setores também consolidam-se economicamente, o que gera um aumento do poder aquisitivo da crescente população. A população, principalmente em economias com maior poder de compra, muda também seus hábitos alimentares e passa a buscar alimentos processados ou com maior valor biológico, que demandam cada vez mais empenho de recursos no campo. A agricultura prova-se qualificada a alimentar toda a população mundial, ainda que os mais de 1/3 de desperdício de alimentos (pelos consumidores e ao longo da cadeia produtiva) e as más distribuições de alimentos culminem em desnutrição para certas camadas sociais menos favorecidas.

Com o avanço da agricultura, a balança comercial do Brasil que já era sustentada pelo setor, apresenta quase metade das suas exportações advinda do campo em 2016. O agronegócio passa a compor quase um quarto do produto interno bruto (PIB) nacional, favorecendo mais ainda a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.

 Evolução das estratégias de negócios vencedoras

Em um setor da economia onde preços são dados pelo mercado e a redução de custos é vital para a sobrevivência na atividade, a estratégia de expansão de áreas e aumento de produtividade da área agrícola historicamente marcou o sucesso econômico de muitos. Embora ainda muito se discuta quanto ao avanço da produção no Brasil em novas fronteiras agrícolas, presentes nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (chamados MATOPIBA), a abertura da área passa a se tornar cada vez menos relevante para o ganho de escala e minimização de custos na atividade. Pressões sobre este tipo de estratégia aumentam por ações da sociedade contra desmatamentos e maiores controles sobre cadeias produtivas.

Produtores de regiões onde a expansão de área já era dificultada, em função da alta densidade populacional, organizam-se em associações e cooperativas com o objetivo do ganho de escala e empoderamento dentro da cadeia produtiva de alimentos. O modelo difunde-se substancialmente no sul e sudeste do país, culminando em casos de sucesso bem como de insucesso, determinados principalmente pela capacidade de gestão daqueles que passam as lideranças dessas organizações. A eficiência operacional, bem difundida entre membros, junto a novas estratégias de agregação de valor à produção e à comercialização promovem ganhos aos membros de cooperativas bem estruturadas e com boa capacidade de gestão.

Grandes empresas, à montante (fornecedoras) e à jusante (compradoras) da produção primária de commodities agrícolas no Brasil, também constatam sucesso nas estratégias de crescimento que abrangem a gestão da cadeia produtiva. Tais estratégias figuram como grande potencial para fidelização de produtores e maximização de lucros.

Empresas de processamento de proteína animal tornam-se grandes integradoras da cadeia, enquanto que empresas focadas na originação de produtos de origem vegetal passam a fornecer crédito e insumos como forma de assegurar a boa gestão de recursos, alta produção e fornecimento de alimentos.

O meio legal voltado ao setor também se desenvolve com a criação de instrumentos jurídicos, como a CPR (cédula de produto rural), CRA (certificado de recebíveis no agronegócio), entre outros, que permitem a expansão cada vez maior de operações que terceirizam a gestão financeira por parte do produtor, como o Barter.

Novas estratégias de negócio para produtores rurais

Mais recentemente, uma parcela de produtores passa a consolidar seus conhecimentos quanto aos retornos econômicos associados à gestão da produção e da empresa rural como um todo. Está última abarcando também a gestão financeira, de máquinas, pessoas, compras, vendas, entre outros.

Exacerbada pela agricultura escalada e mecanizada, que compete pelas mesmas fontes de capital (assim como a terra) para expandir suas produções, novos modelos de negócio focam, não mais em abertura de novas áreas mas, principalmente, na gestão dos vários recursos empregados na composição de uma empresa rural. Tal estratégia passa a figurar como altamente atrativa entre produtores rurais.

Este é o caso por exemplo do sistema de integração lavoura-pecuária, que permite ao agricultor (ou pecuarista) realizar até 3 safras no ano (2 agrícolas e uma pecuária). A estratégia demanda maiores investimentos, contudo estes passam a focar em infraestrutura relativamente maiores, máquinas e técnicas agronômicas, e não mais na expansão de terras.

Cresce neste modelo também, a implementação de sistemas integrados dentro da propriedade agrícola que, de maneira geral, busca a agregação de margens dentro da porteira por meio da expansão das operações para setores de armazenamento, beneficiamento e comercialização da produção. Este é o caso da produção animal intensiva (ou não) e verticalmente integrada, que alia indústria, setor primário e varejo.

Alavancando estratégias de competitividade de produtores brasileiros

Consolidando-se as boas práticas de gestão na produção primária agrícola, produtores rurais brasileiros apresentam alto potencial de lucros, mesmo diante da menor disponibilidade de abertura de áreas.

O Brasil ainda dispõe de uma enorme gama de recursos que favorece a competitividade da produção agrícola e pecuária nacionais.

Recursos naturais favorecem a agricultura na produção de até 3 safras no ano, com abundante quantidade de água, matéria orgânica nos solos e temperaturas ideias para cultivos. Também não dispomos de grandes fenômenos naturais encontrados em diversos países, o que pode ser um impeditivo à produção agrícola (furacões, nevascas etc). O grande potencial hídrico brasileiro é também subaproveitado, em que portos e hidrovias podem ser construídos a fim de baratear o custo com fretes, e maximizar a logística de escoamento interno.

Disponibilidade de recursos financeiros por parte de programas de incentivos do governo e taxas atrativas de juros em linhas de crédito rural. Além disso, o câmbio relativamente favorável para exportações permite a competição dos produtos no mercado internacional.

Aliado a isto, temos uma economia em franco desenvolvimento, o que projeta mercados consumidores internos com alto potencial de compra de produtos agrícolas, sejam eles alimentícios ou ainda voltados à geração de energia (tendência muito observada em algumas regiões).

A nova revolução no campo, a Revolução Digital

Junto à adoção de novas práticas de gestão, já no século XXI, a agricultura no Brasil também se beneficia do que alguns chamam da nova revolução verde, a revolução digital no setor. A digitalização passa a trazer inúmeros benefícios para o setor, desde a redução de custos de processos que eram feitos manualmente, até o controle e predição de novos processos que levam em consideração a infinidade de varáveis presentes na produção agrícola. Ainda que a agricultura figure como o setor menos digitalizado da economia, é inevitável que cada vez mais as tecnologias da informação e computação se insiram no meio agropecuário brasileiro e contribuam para o seu desenvolvimento.

Aliada à agricultura de precisão, onda tecnológica que veio há poucos anos, a gestão da informação ganha corpo e figura como importante aliado nessa nova era. As utilizações de tecnologias permitem, por exemplo, a avaliação metro a metro de manchas de solos, permitindo a aplicação variável e otimização do uso de recursos, focando no maior custo benefício ou retorno econômico trazido.

Podemos mencionar também sistemas automáticos de irrigação, aplicação de defensivos apenas nas plantas necessárias, sistemas de colheita e plantio coordenados por GPS, entre outros. A informação passa a figurar como um insumo de produção, o que diminui desperdícios de outros insumos (com a aplicação variável) e também aumenta produtividade (maximiza os retornos da utilização de insumos).

A agricultura está avançando em ritmo muito acelerado, com tecnologias digitais cada vez mais presentes no dia a dia do campo. Seus benefícios são inegáveis e aumentam ainda mais a competitividade da agricultura brasileira.

 Dificuldades ainda encontradas

Apesar da liderança na produção de diversos produtos agrícolas e pecuários, o Brasil ainda apresenta alguns pontos de melhoria, o que garantiria grande vantagem competitiva, mesmo frente à excelência operacional já existente. Muitos deles associados às estratégias ligadas à administração pública ou da cadeia como um todo.

Este é o caso de aspectos logísticos, por exemplo, que ainda são muito limitados quando comparados a países produtores. O escoamento da produção ainda é realizado majoritariamente por rodovias. Estas, por sua vez, raramente estão em boas ou ótimas condições de uso, o que incorre altos custos com fretes e perdas de produtos, diminuindo a competitividade do Brasil para com o mercado mundial.

Outro fator que pode ser mencionado, é a questão da capacidade instalada de armazenagem. Com uma safra recorde estimada (cerca de 235 milhões de toneladas de grãos em 2017/18), o país comporta a armazenagem de apenas 168 milhões de toneladas, segundo o IBGE . Em comparação, poderíamos mencionar que os produtores norte-americanos possuem a capacidade de armazenar quase duas safras completas. A ampliação do investimento em armazéns confere grande vantagem, principalmente no gerenciamento de riscos e definição de estratégias comerciais.

Por último, podemos citar um sistema governamental que passa por um momento delicado onde mudanças políticas influenciam diretamente o campo. A elevada carga tributária e complexidade burocrática do país também habita o agronegócio, que mesmo assim prospera e sustenta o país.

Independente da estratégia

Independente da estratégia adotada, é necessário se ater aos pontos críticos e fatores chave para o sucesso da mesma, sempre considerando alternativas e a atualização das mesmas em conjunto. Neste contexto, a gestão estratégica se faz importante, e ampara a tomada de decisões principalmente de longo prazo, a fim de garantir que a agricultura brasileira continue a ser referência no mundo.

Considerando todos os recursos internos (disponibilidade de recursos, conhecimento sobre operações, manejo integrado de riscos etc) e externos (políticas externas, mercado nacional e internacional, recursos naturais, logística etc), a gestão estratégica vem para maximizar o retorno econômico da atividade e garantir que esta perdure no longo prazo.

 

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